Massai está sendo comido pelo câncer. Meu cachorro alegre acordou sem vida. Estamos lutando. Meus filhos despertam e cantam “Desde as Estrelas”. Sou esmagado pela morte e pela vida. O mundo tem uma coisa secreta que precisamos sentir, uma vida debaixo da terra, debaixo da rocha, debaixo de tudo que você conhece. Uma vida de verdade, se conseguir senti-la, consegue mudá-la. Já faz um tempo que meu eu não é univoco. Já não tenho o privilégio de simples acusador, sou acusado, igualmente. Deixei de viver a ilusão de que a realidade é certa, de que eu sou soberano. A existência nos transcende, nos ultrapassa. Sim! Amigo leitor! Isso pode nos deixar mais inseguros, mais divididos, com mais “eus”, mas também nos deixa mais humanos. Não procuro mais eliminar opostos, ambivalências e polaridades, quero aprender a conviver criativamente com elas. Sem a sombra, que tanto falou Jung, nós permanecemos relativamente simples. Sou uma boa pessoa. Sou justo. Sou honesto. Sou feliz. A falsa pureza me deixou há muito tempo. Exijo-me a tocar o mal que está em mim, a injustiça, a corrupção e a tristeza que cá existem. Dizem que quando se toca o mal, corre-se o risco de se sucumbir a ele. A vida exige justamente “tocar” o mal que existe dentro da gente. Mas tocar a sombra não significa se render a ela. Nem mesmo tocar a luz pode nos por amarrados e presos. Significa reconhecer que a alma humana é feita de forças que nem sempre coincidem entre si. Por mais estranho que possa parecer, uma harmonia mais profunda nasce da tensão desses contrários. “O caminho para cima e o caminho para baixo são um e o mesmo”, como Heráclito já o reconheceu. A alma humana não é um bloco uniforme, nela cabe muita coisa. Inclusive os contrários, as ambivalências… Estamos sempre entre a bigorna e o martelo. E lá no sertão, a chuva, a água, a razão desse meu canto em paz.
Fonte: Ministério Público MT – MT




























